
Acho que se um dia todas as partes do meu corpo começassem a reclamar da administração a que é submetidas diariamente, a primeira a se queixar, e com razão, seriam os meus pés, os coitadinhos. Sim, porque se tem uma parte do meu corpo que é extremamente zicada, esses são os meus queridos pezinhos. Eles nunca tiveram uma vida extremamente digna e talvez eu seja carrasca demais com os coitados, afinal todo dia eles agüentam o meu variável peso, todo dia eles me levam pra cima e pra baixo (e olha que eu ando, hein), todo dia eles me sustentam em alguma posição do yoga, tá que eu não sou de dançar muito, mas eles me levam pra cima e pra baixo em todos os shows em que eu vou, já que pulo demais em todos, para a vergonha do meu irmão.
Mas enfim, que este post seja uma ode aos coitadinhos. Desde que eu nasci eles sofrem, logo de cara foram furados para fazer o teste do pezinho, sem contar que a minha mãe adorava passar tinta neles para carimbar o tamanho dos mesmos.
Puxei o pé do meu tio paterno mais velho. Os dedos parecem batatinhas, e as unhas dos dedões são encravadas. A única diferença é que eu não faço aquela posição "quinze pras quatro", como ele (totalmente brittish blasé, mas isso é história pra outro post). Mas, como ele, tb sofri com as frieiras, e tb como ele eu já usei muito talco Granado nos pés.
Porém, até aí meus pés estavam no paraíso, eram até muito bem calçados com Bubble-Gummers e conguinhas das mais variadas. Porque quando eu fiz 4 anos, ah, os coitados conheceram o inferno, dá-lhe Maria Renata usando botinhas ortopédicas apertadíssimas, a mando do pediatra. Devo ter usado aquelas coisas horrorosas até uns 6 anos de idade, mais ou menos.
Ok, pezinhos, vamos fazer natação? Vamos. Vamos ter também frieiras e bolhas. Coitados. Isso deve ter sido dos 8 aos 10 anos. Daí aos 12 eu comecei a lutar Tae KwonDo. E eram hematomas, vermelhidões, torções. Depois de dois anos, meus pais, não contentes com a administração da academia, cancelaram minha matrícula. Paciência, né.
Daí, o coitado do pé esquerdo sofre o maior acidente de sua vida: meu irmão, no Natal de 1996, ganha uma bola de futebol americano, o que fez a alegria dos primos pelas férias todas. E não diferente da irmã, que ficava feliz de jogar com o irmão no corredor da cozinha. Lá vai ela, toda serelepe, passar a oblonga bola por debaixo das pernas, como tanto via nos filmes americanos. Só que, o que ela não notou era a proximidade da parede, e... catapimba! Consegue ter o dom de tropeçar na mesma. Caí rindo muito, mas reclamando de dor. "Bah, ela caiu rindo, ela tá bem, essa dor forte é só a dor da torção", diz meu pai, expert em curativos com Gelol. Meses depois, a dor não passava, e finalmente resolvem me levar num ortopedista sob acusações de "isso é bobeira sua". Ele analisa o raio x, mexe no meu dedo, ouve um "croc-croc", e fecha a cara para os meus pais: "Agora que vcs trazem ela??? Isso aqui está quebrado, agora é tarde demais, porque calcificou errado, agora só operando!", e eu tive os meus cinco minutos de vingança sedenta com os meus envergonhados progenitores. Então, sigo com o dedo quebrado desde então, lembro que eu conseguia prever o tempo numa época: se fosse chover, doía, se fosse ficar quente, ele ficava normal. Isso, inclusive, me rendeu o apelido de Chico Bento.
Passado isso, em setembro do mesmo ano, ganhei uma viagem de formatura de oitava série dos meus pais, e lá fui eu querendo abafar, fui ao salão de beleza beleza fazer os pés e as mãos. Até então, nunca tinha feito o pé antes, por causa da unha encravada. A pedicure cutucou, cutucou, cortou aqui, tirou cutícula lá, e a Maria Renata foi pra praia, feliz. Três dias depois uma coisa preta estranha começou a crescer rente à unha: carne esponjosa. Tratamento: queimar com iodo e enfaixar, para depois ir à farmácia, onde o seu Cláudio enfiava a tesoura por debaixo da unha para cortá-la. Era uma sofreguidão sem fim (Pausa pra se refazer da lembrança da dor). Mas passou. Por isso se vc ver o meu pé esquerdo, pense duas vezes antes de perguntar se aquela coisa torta é uma joanete.
Para quem não sabe, a hora é agora: eu adoro tênis. Adoro All Stars e Adidas retrôs, especificamente, então meus pés são constantemente abafados. Também adoro refrigerante, e adoro tomate. E o Everton, sempre que vê minha língua, diz que eu retenho líquido. Todo verão as bolinhas de ácido úrico visitam os meus pés. Daí esterilizo uma agulha com álcool, furo uma por uma e passo pomada.
Aos 21 anos, comecei a praticar yoga, até então eu era uma relapsa total. E lá vai o coitado, me sustentar nas mais variadas e divertidas posições de equilíbrio. Mas às vezes eu acho que ele respira aliviado, deve se sentir tão bem...
E depois de toda essa trajetória, eu nem imagino qual vai ser a próxima desventura do coitado, sei que sem ele eu não sou nada, e apesar dele não me agradar muito visualmente falando, andei pensando em fazer uma tatuagem no peito do direito. Que será que ele me diria?
Provavelmente, "Trégua, Maria! Trégua"!
Ah, os pobrezinhos.
"Assim Será", Los Hermanos
E Maria Renata tornou sua vida pública novamente às 17h48
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